A Cidadezinha

A Cidadezinha

É engraçado como universos se formam inadvertidamente. Ele estava nessa Cidadezinha havia quatro dias e até então nada acontecera. Seu plano de escapar já era não somente frustrante como também (cada vez mais) ridículo, pois definitivamente não saberia explicar em quê consistia exatamente o plano. Nem sequer planejado foi: ao sentir-se encurralado por circunstâncias que lhe pareceram sufocantes, tal qual gato em meio a muito barulho e confusão, decidira repentinamente sumir, meter-se em algum canto e esperar que o mundo (ou ele mesmo) desaparecesse. E ali estava agora, na Cidadezinha, relutando em reconhecer que o mundo viera junto com ele e evitando o olhar do pessoal local, que parecia sentir e expressar deliberadamente o incômodo de sua presença despropositada.

Não é que sentisse remorso pelo disparate. Embora não se poderia dizer que a decisão tomada foi inconsciente, estava convencido de que tampouco havia sido propriamente decidida: era mais um desafio intrépido à vida, como uma tacada aleatória em jogo de bola oito. Até que as bolas cessem seu movimento, não se sabe bem qual o resultado da ação. E esse era o outro motivo – talvez o principal – pelo qual não sentia remorso. Sua intuição lhe dizia que as bolas ainda estavam rodando; pressentia, inclusive, que rodariam ainda por algum tempo, quem sabe mesmo adquirindo energia própria, desafiando assim as leis do seu universo.

Por favor, não busquemos esmiuçar as circunstâncias sufocantes que o fizeram fugir e, assim, acenderam esta história. Cada um pode muito bem imaginar as suas, ainda que não sejam necessariamente suas, e com isso basta para que vislumbremos a pontada de excitação com a qual atravessou a cerca de sua vida, sua Cidade, seu universo. Foi facilitador o fato de não ter quem o prendesse lá – com exceção de uma irmã que quase nunca via, e de uma colega de trabalho por quem teve certa afeição, não tinha família nem ninguém a quem dar satisfação.

Esta é uma história sobre as bolas rodando, portanto aja como o gato: esqueça a tacada e suas intenções e concentre-se no efeito. Vamos até usar o presente, pois assim poderemos sentir o movimento vertiginoso das coisas. Ele está, digo, há quatro dias na Cidadezinha e nada especial até agora aconteceu.

Da pequena janela, no quarto do hotel, vê um pedaço de rua, pedaços de edifícios e um pedaço de céu sem estrelas. A noite é cálida e ele acompanha com interesse os escassos transeuntes que cruzam seu campo de visão, os quais não parecem ter destino certo e caminham sem pressa. O único espaço aberto que se poderia chamar horizonte dá-se num vão entre dois prédios velhos e aparentemente desabitados, e nele a vista se estende para um pequeno morro coberto de casas, postes, cercas, carros, entulhos e outras coisas que costumamos acrescentar humildemente ao trabalho da natureza. A noite e a visão apertada pelos edifícios impedem qualquer interpretação da geografia desse bairro que ali se espalha. Vê-se apenas um emaranhado de formas dispostas na penumbra, tocadas aqui e ali pela luz preguiçosa dos escassos postes de iluminação e das casas. Na verdade, toda a Cidadezinha dá a impressão de estar quase desabitada – nenhuma das pessoas que avistou, durante esses quatro dias, lhe passou a impressão convicta de ser um habitante local. Na falta de algo melhor para ver (já faz tempo desde que passou o último caminhante pela rua), ele acaba concentrando naturalmente sua atenção no pedaço de morro, para a onde a visão e os pensamentos escorrem sem dificuldades.

Nessa visão confusa, uma pequena luz amarela lhe chama a atenção. Ela aparece um pouco afastada dos demais focos, e seu isolamento traz um ritmo agradavelmente assimétrico à paisagem. Veja que, para uma mente que busca o devaneio e a desorientação, tal deslocamento facilmente prende a visão e o pensamento, portanto não é de estranhar que ele ali concentre seu olhar – uma luz fora de lugar, afinal, não está longe de iluminar sua própria situação, numa Cidadezinha que não lhe diz respeito. Será uma casa que tenta fugir ao bairro? Com todo o tempo do mundo, o que dá no mesmo que dizer sem Tempo algum, ele decide descer e meter-se no morro em busca dessa luz.

Atravessa a rua, contorna um dos prédios velhos que antes impedia sua visão e dá de cara a várias ruelas iguais, cada uma delas inaugurando à sua maneira o bairro que ocupa o morro. Já não vê a luz que escolheu por destino, porém confia em seu senso de direção e opta por uma das ruelas. Basta caminhar por alguns metros e já sente o gosto pelo erro, isto é, a vontade de perder-se enquanto caminha, ao mesmo tempo em que se aferra à ideia de que, em algum lugar no meio desse emaranhado de caminhos, está a luz que eventualmente lhe servirá de chegada. Essa sensação não é contraditória à vontade de encontrar o destino escolhido, pois sabe que perder-se é a melhor forma aproximar-se àquilo que procura. Isso é o que lhe trouxe até ali. Isso é o que lhe fez enxergar a luz em primeiro lugar. Isso, enfim, são bolas rodando pelo tapete verde.

Em alguma esquina vira à esquerda, noutra à direita. Sobe por uma ladeira e vai atravessando uma pracinha. Já quase ao final, no último banco à beira do caminho de terra, ele enxerga ela. A princípio não vê mais do que um vulto indistinto (a iluminação da rua, já sabemos, é escassa), mas ao se aproximar percebe tratar-se de uma mulher, sentada no banco com as pernas esticadas e as mãos nos bolsos da blusa. Enquanto caminha em sua direção, já se decidiu por falar-lhe alguma coisa, exatamente da mesma maneira em que decidira deixar o seu mundo para formar outro na Cidadezinha, ou seja, sem tomar exatamente nenhuma decisão. Caminha tão lentamente que quase parou à sua frente.

“Não se assuste. Quero apenas falar algo.”

Nenhuma resposta. Ao mesmo tempo em que estranha a falta de reação da menina, pois o medo dos seres humanos entre si é o que há de mais habitual neste nosso universo, pressente que o estado de espírito dela não deve estar longe do seu, talvez buscando, à sua maneira, uma luz isolada no interior de um bairro de uma Cidadezinha. Agora está sentado ao seu lado, no banco.

“Tenho vontade de me perder cada vez mais neste bairro. Quanto mais caminho, mais tenho gosto por não saber onde estou”. Ambos olham para a rua que começa ao final da pracinha, prolongando o caminho de terra. Não se pode ver até onde vai essa rua, pois parece tortuosa e a iluminação tampouco ajuda. Ela tira do bolso um pingente prateado em forma de golfinho e o examina com um rosto sem expressão. “Pode até parecer que estás perdido agora, à noite. Se fosse dia, verias que este bairro é perfeitamente previsível em todos os seus caminhos.” Ela diz, sempre olhando para o pingente que tem nas mãos. “Ali na próxima quadra está a rua Vereador Albino, a principal. Ela sobe o morro até o final e dela saem, perpendicularmente, as outras três ruas principais: rua Vasco Antunes, rua Carmelo de Abreu e rua Mazarape. Cada uma fica a três quadras de distância da outra. No meio, ficam essas ruazinhas, meio sem direção nem sentido. O supermercado fica na rua Mazarape, o posto de saúde na Carmelo e o comércio na Albino mesmo. Só esta praça está fora de lugar, entre essas ruas que não sei o nome. Depois há casas, nada mais.”

Ele não pode evitar a produção de um mapa mental enquanto ela fala. Imagina a Vereador Albino, talvez a única asfaltada, mais larga e de mão dupla, subindo e já deduz mais ou menos o tamanho e a aparência da região. Bem típica em relação ao que conhece de outras Cidadezinhas, outros mundos. É com essa imagem na mente que pergunta: “tem alguma ruazinha mais isolada no bairro, como se estivesse fugindo da Cidadezinha?”

E a resposta vem em seguida: “tem. Vamos”.

Os dois se levantam e começam a caminhar, ela sempre com seu pingente de golfinho na mão, ele sempre com nada, nada nas mãos, nem nos bolsos nem no coração. Uma rua, uma esquina, outra rua. Está claro para ambos que vão sem direção, que são parte da tacada que pôs tudo em movimento desde o começo de… de quê, afinal? Deste encontro inaudito, desta noite, desta história? A resposta não faria diferença, por isso podemos dizer simplesmente que desde o começo do universo. Mas é engraçado como os universos se formam inadvertidamente. Sua transformação é tão besta, insensível, impassivelmente constante e impossivelmente palpável, que termina sendo a única substância que eles têm. Ela olha para ele de vez em quando, vê seu rosto quando a luz o permite e repara em tudo isso que é tão crucial, e no entanto fica sem existir porque as bolas não param de rodar. Eles mesmos estão profundamente unidos agora, porém sem poder concretizar absolutamente nada. O encontro casual já é também o desencontro. Outra rua, um cachorro vagando, dois faróis de um carro que passa. Em algum momento chegam a se beijar, também com algum carinho mútuo no rosto e o calor do corpo que se mistura ao cheiro do outro. Vão postergando ao máximo o encontro daquilo que procuram e o fim do bairro, porém sem deixar jamais de rodar. Em algum momento se desencontram e ela agora segue pela última ruela, já sem ver praticamente nada. A rua termina, mas o morro continua, a pedra do calçamento dá lugar ao pasto. Ao avançar, ela acha graça ao constatar que, apesar de toda essa transformação durante o caminho andando, deve estar a algumas centenas de metros de sua casa, embora já não possa adivinhar em qual direção. Enquanto caminha, em plena escuridão, lembra de sentir entre os dedos o pingente de golfinho, que é o símbolo de alguém que já não importa. A única sensação que lhe sobrou é a naturalidade com que começou o caminho. É com essa naturalidade que joga o pingente para longe. Do nada para o nada.

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