Rotina

A mesma esquina, as mesmas casas, o mesmo vento. Até o cachorro branco começava a se repetir demais. Talvez a dona fosse alguma nova vizinha. A vida de Lucila sempre fora uma série de rotinas, não necessariamente por excesso de zelo e programação obsessiva, mas simplesmente essas rotinas que se instalam naturalmente, como bichanos que rodeiam o lugar onde vivemos, e os quais finalmente (inadvertidamente?) adotamos. Daí em diante eles aí estão: estritamente falando, não fazem parte de nossa vida, não são nós mesmos, mas, o que dizer?, aí estão. As rotinas de Lucila poderiam ser creditadas à sua personalidade dócil – “apática”, diriam alguns, as pessoas normais. Ela bem sabe disso, mesmo enquanto vai passando por outra esquina (a mesma), sempre caminhando sem pressa, tem uma consciência espantosa de que as coisas que faz cotidianamente lhe importam muito menos do que deveriam, pelo menos segundo as pessoas normais. Neste momento, se dirige à pracinha chamada João Assis Saldanha de Moraes, com árvores velhas, grandes e tortas. Descobriu esse lugar há umas semanas, num dia nublado e com um pouco de vento (o mesmo), e, estando naquela ocasião vazia, Lucila sentiu-se ali repentinamente confortável, sentada no banco a comer bolachas de água e sal. O conforto, ao que parece, vinha da sensação estranha de existir fora daquele lugar, de ver o marasmo das casas que circundam a pracinha João Assis Saldanha de Moraes e saber, ou intuir, que ela, ela mesma, não existia ali. Do conforto, claro, veio a rotina, e por isso ela frequentemente retorna, como agora, à pracinha João Assis Saldanha de Moraes – as bolachas de água e sal são às vezes substituídas por outras qualquer, ou nenhuma.

Mas nem tudo é conforto na rotina, pois sabe-se que o repetir das coisas não é nunca exatamente um repetir. A linha circular, forjada como um coágulo de tempo ao redor da rotina, costuma ser atravessada pela linha da existência, a qual tem uma direção mais ou menos assim:

E Lucila pressente seu deslocamento no interior das rotinas justamente quando estas começam a perder força. Mas não se trata exatamente de tédio. Ela percebe a mesma esquina e o mesmo cachorro, e se dá conta daquilo que lhe escapa pelas mãos, o que lhe deixa um pouco apreensiva. Talvez tenha a ver com alguma outra coisa em marcha na sua vida, algo relacionado à faculdade, ou senão amigos, um novo amor, quem sabe simplesmente um cansaço de tantas obrigações desinteressantes. (estará em TPM?). Seja o que for, o que lhe sobra é uma amargura por sentir-se em defasagem, o que, visto de fora, pode parecer relacionado com o envelhecimento das rotinas atuais, como esta de buscar outra vez a pracinha João Assis Saldanha de Moraes. Mas Lucila está convencida de que há algo por detrás dessa superfície rotineira, e duvida dos seus próprios costumes. Volta a pensar em sua existência e, apesar de reencontrar o conforto ao reconhecer que não se encontra ali, lhe preocupa o fato de não saber onde está, ou pelo menos se está em algum lugar.